Essa pergunta brilhou como neon diante de mim. Minha garganta embargou e meus olhos marejaram, porque simplesmente não posso conceber que essa realidade me persiga pela eternidade. Nascer e crescer em uma igreja me apresentou o melhor e o pior ao mesmo tempo.
O senso de comunidade e de pertencimento, desde muito cedo, me proporcionaram um local onde encontraria semelhantes, pessoas que compreenderiam, acolheriam e que me amariam apesar de qualquer coisa. Mas até que ponto isso é verdade?
Quando se é criança, uma infantilidade gentil e ingênua cativa a todos e os impedem de serem rudes e castradores. Cada gesto, por mais simples que seja, até à tenra idade, não macula as crenças do que é certo e adequado. Mas isso não dura para sempre, não é mesmo?
A criança cresce e a aparência e cada trejeito é especulado e analisado e criticado e julgado com um fervor que pode massacrar a nossa existência, gradativamente. “Ande direito”, “não vire essa mão”, “fale como homem”, “pare de andar apenas com as meninas” e “não adianta chorar que eu não te bati”, essa última com a dureza de um tapa, marcando uma personalidade em formação.
Aí, você se adapta: você se cala, por medo de falar, você se isola, por medo de conviver, você endurece, por medo de aparentar e você cria uma versão de si mesmo que você carrega como um peso e que o torna minimamente aceitável, porque você percebe que nada do que você faz é suficiente para abafar completamente a chaga aberta de quem você é. Eles nunca estão satisfeitos, por maior que seja o seu sacrifício.
Você cresce e aprende que se não dá para ser perfeitamente encaixado no padrão, tudo que você pode é desviar o olhar acusador sendo o melhor em determinadas coisas: o melhor nos estudos, o mais fervoroso leitor, o melhor cantor, o mais prestativo, o melhor ouvinte, o jovem trabalhador e até mesmo o namorado fiel.
Mas quem você é nunca para de gritar, de clamar por liberdade. É uma briga intensa, mas silenciosa, revelada nas madrugas ajoelhado ao lado da cama clamando por socorro, recebendo de Deus uma resposta ainda mais silenciosa e aparentemente tão cruel.
Mas não posso ser injusto. Deus sempre foi e ainda é um companheiro carinhoso e gentil, acolhedor e compreensivo. Mas as pessoas ao meu redor me impediram de vê-lo como Ele é. Aqueles que deveriam ser responsáveis por me apresentar o Deus pai carinhoso, só reforçaram a imagem do Deus cruel e exigente, para o qual sou sempre inadequado e falho. As pessoas encaixotam o Deus nos dogmas de suas próprias limitações e o acorrentam a um papel de julgador implacável.
É triste e incoerente pensar que só comecei a realmente conhecer a Deus a partir do instante em que afastei a igreja de mim. Não digo que me afastei da igreja porque por muitos anos eu ainda estive lá, envergando a mesma imagem, construída com tanto sacrifício, só para agradar e enganar, mas eu a afastei de mim, e aos poucos afastei seus seguidores de quem eu realmente era.
A pior parte desses anos todos foi me sentir completamente sozinho. Em um lugar onde acolhimento e cura deveriam ser as palavras de ordem, vi muitos partirem, feridos e ofendidos, traumatizados por anos de escolhas questionáveis, só pra tentar se encaixar, cientes de que tudo que conseguiram foi falhar. Eu fiquei ainda por muito tempo, mas as cobranças não cessam. Você não pode permanecer se não crescer: “e as namoradas?”, “quando vai casar?”, “ainda na casa dos pais?” ou “e meus netos, quando virão?”.
Quando o cansaço vira completa estafa e as forças nos abandonam, aí, finalmente a escolha vem e é preferível sofrer só em casa do que na igreja também. E um raio de esperança parece brilhar e a carga de tantos anos você começa a largar. E o Deus escondido atrás de tantas camadas começa a se mostrar... E você volta a ansiar pelo céu, por uma eternidade de paz e descanso... Longe daquilo que tanto te consumiu.
Mas eles ainda são donos do céu, escolhidos e marcados, seres sacrificiais, perseverantes e que fizeram por merecer. Será que quero compartilhar desse lugar? Será que quero uma eternidade na companhia de quem só me fez sofrer?
Aí idealizo um segundo céu: um céu dos fracos e doentes, daqueles que nada fizeram e só dependem da graça e misericórdia de um Deus gentil, que aguarda ansioso para fornecer descanso, em uma eternidade semelhante à de Borges: “uma espécie de biblioteca” para ler e reler toda a bela imaginação que Deus inspirou nos mais raros corações.
Quantas igrejas tem o céu? Espero que nenhuma, pelo menos nenhuma das que eu por tanto tempo conheci.











