19 maio 2025

[Quantas igrejas tem o céu?]

Essa pergunta brilhou como neon diante de mim. Minha garganta embargou e meus olhos marejaram, porque simplesmente não posso conceber que essa realidade me persiga pela eternidade. Nascer e crescer em uma igreja me apresentou o melhor e o pior ao mesmo tempo.

O senso de comunidade e de pertencimento, desde muito cedo, me proporcionaram um local onde encontraria semelhantes, pessoas que compreenderiam, acolheriam e que me amariam apesar de qualquer coisa. Mas até que ponto isso é verdade?

Quando se é criança, uma infantilidade gentil e ingênua cativa a todos e os impedem de serem rudes e castradores. Cada gesto, por mais simples que seja, até à tenra idade, não macula as crenças do que é certo e adequado. Mas isso não dura para sempre, não é mesmo?

A criança cresce e a aparência e cada trejeito é especulado e analisado e criticado e julgado com um fervor que pode massacrar a nossa existência, gradativamente. “Ande direito”, “não vire essa mão”, “fale como homem”, “pare de andar apenas com as meninas” e “não adianta chorar que eu não te bati”, essa última com a dureza de um tapa, marcando uma personalidade em formação.

Aí, você se adapta: você se cala, por medo de falar, você se isola, por medo de conviver, você endurece, por medo de aparentar e você cria uma versão de si mesmo que você carrega como um peso e que o torna minimamente aceitável, porque você percebe que nada do que você faz é suficiente para abafar completamente a chaga aberta de quem você é. Eles nunca estão satisfeitos, por maior que seja o seu sacrifício.

Você cresce e aprende que se não dá para ser perfeitamente encaixado no padrão, tudo que você pode é desviar o olhar acusador sendo o melhor em determinadas coisas: o melhor nos estudos, o mais fervoroso leitor, o melhor cantor, o mais prestativo, o melhor ouvinte, o jovem trabalhador e até mesmo o namorado fiel.

Mas quem você é nunca para de gritar, de clamar por liberdade. É uma briga intensa, mas silenciosa, revelada nas madrugas ajoelhado ao lado da cama clamando por socorro, recebendo de Deus uma resposta ainda mais silenciosa e aparentemente tão cruel.

Mas não posso ser injusto. Deus sempre foi e ainda é um companheiro carinhoso e gentil, acolhedor e compreensivo. Mas as pessoas ao meu redor me impediram de vê-lo como Ele é. Aqueles que deveriam ser responsáveis por me apresentar o Deus pai carinhoso, só reforçaram a imagem do Deus cruel e exigente, para o qual sou sempre inadequado e falho. As pessoas encaixotam o Deus nos dogmas de suas próprias limitações e o acorrentam a um papel de julgador implacável.

É triste e incoerente pensar que só comecei a realmente conhecer a Deus a partir do instante em que afastei a igreja de mim. Não digo que me afastei da igreja porque por muitos anos eu ainda estive lá, envergando a mesma imagem, construída com tanto sacrifício, só para agradar e enganar, mas eu a afastei de mim, e aos poucos afastei seus seguidores de quem eu realmente era.

A pior parte desses anos todos foi me sentir completamente sozinho. Em um lugar onde acolhimento e cura deveriam ser as palavras de ordem, vi muitos partirem, feridos e ofendidos, traumatizados por anos de escolhas questionáveis, só pra tentar se encaixar, cientes de que tudo que conseguiram foi falhar. Eu fiquei ainda por muito tempo, mas as cobranças não cessam. Você não pode permanecer se não crescer: “e as namoradas?”, “quando vai casar?”, “ainda na casa dos pais?” ou “e meus netos, quando virão?”.

Quando o cansaço vira completa estafa e as forças nos abandonam, aí, finalmente a escolha vem e é preferível sofrer só em casa do que na igreja também. E um raio de esperança parece brilhar e a carga de tantos anos você começa a largar. E o Deus escondido atrás de tantas camadas começa a se mostrar... E você volta a ansiar pelo céu, por uma eternidade de paz e descanso... Longe daquilo que tanto te consumiu.

Mas eles ainda são donos do céu, escolhidos e marcados, seres sacrificiais, perseverantes e que fizeram por merecer. Será que quero compartilhar desse lugar? Será que quero uma eternidade na companhia de quem só me fez sofrer?

Aí idealizo um segundo céu: um céu dos fracos e doentes, daqueles que nada fizeram e só dependem da graça e misericórdia de um Deus gentil, que aguarda ansioso para fornecer descanso, em uma eternidade semelhante à de Borges: “uma espécie de biblioteca” para ler e reler toda a bela imaginação que Deus inspirou nos mais raros corações.

Quantas igrejas tem o céu? Espero que nenhuma, pelo menos nenhuma das que eu por tanto tempo conheci.

12 outubro 2017

[porque nunca esquecerei!]

Lembro que a última vez que realmente chorei desconsolado, foi quando recebi a notícia que meu tio havia falecido. Não sou de chorar. Dificilmente deixo qualquer coisa me abalar a ponto de me entregar às lágrimas. Isso até hoje!

Todos os livros do Zafón tem a capacidade mágica de me emocionar! Sua escrita arrebatadora me presenteou com aquele que é sem dúvidas o livro que mais me marcou, em toda a vida: "A Sombra do Vento". Um livro que já reli quatro vezes e que conseguiu me emocionar e me encantar em cada uma dessas vezes.

Durante os últimos quinze dias, depois de adquirir "O Labirinto dos Espíritos", reli toda a série novamente com a intenção de adentrar esse último volume com a memória fresca e entrar de embalo numa narrativa inédita que eu nunca duvidei que iria me prender completamente até a última de suas quase 700 páginas.

Não sei se estava já propenso à emoção, mas nada me preparou para as lágrimas que me esperavam nas últimas 150 páginas desse livro... Reencontrar Julián , Isabella, David, Nuria, Daniel, Fermín, Bea... Conhecer Alicia... Tudo culminou em um final que me arrancou soluços em meio às lágrimas.

Tenho certeza que muitos não compartilharão dos meus sentimentos e podem até considerá-los exagerados... Mas não tenho como descrever a melancolia que me dominou ao ler a última frase dessa longa história que me acompanha a tantos anos, desde quando escolhi "A Sombra do Vento" numa prateleira da livraria em meados de 2007. Um livro recém lançado no Brasil, de um autor que eu nunca tinha ouvido falar e que hoje considero um bom amigo, assim como cada um dos seus personagens...

Porque se existe algo que nunca me esquecerei é que "nós existimos enquanto alguém se lembra de nós"... E enquanto eu viver jamais abandonarei cada um desses meus amigos, que estão eternizados na minha estante para cada uma das inúmeras vezes que ainda me aventurarei em suas mágicas páginas para reencontrá-los!

03 outubro 2014

[meu retrato de sábado]

A música o despertou do sono vespertino. Seu corpo suado incomodava seus movimentos, e depois de acordado não conseguiu mais voltar a dormir. Virou algumas vezes na cama até finalmente se sentar com os pés balançando. A música suave era acompanhada por uma voz bastante empolgada. A careta de descontentamento foi inevitável. Para evitar qualquer chateação, foi para o banheiro, e ligando o player do celular no volume máximo, deixou a voz envolvente do Marcelo Camelo, em seu trabalho com a Banda do Mar, encobrir o ambiente. Ligou o chuveiro, deixou o vapor embaçar o espelho e sentou no chão, com o corpo encostado na parede, enquanto aproveitava a canção de olhos fechados:

"Faz tempo eu quero descansar / E ver as coisas por aí / Viver conforme o que vier / Só precisar do que eu tiver..."

Ele se deixou ficar assim ainda por alguns minutos antes de finalmente se despir e entrar debaixo da água quente que lhe queimava as costas. Foi um daqueles banhos que duram quase uma hora, até ficar com os dedos enrugados. Pegou o celular com a mão molhada e teve dificuldade de desligar a música enquanto se enxugava.
Quando saiu do banheiro, percebeu que a casa estava em completo silêncio. Com um sorriso triunfante ele exclamou, correndo para o quarto enrolado na toalha:
- Graças a Deus! Finalmente só!
Vestiu uma bermuda e mesmo sem camiseta, pegou o livro de "adolescente" que estava lendo e foi para sala deitar no sofá, sentindo o calor grudento de uma tarde quente de sábado. Ter a casa só para si era a melhor parte dos sábados.

A leitura fluía muito bem, mas o calor foi lhe envolvendo e logo o livro foi esquecido e sua mente adentrou num mundo de sonhos conturbados. Livros, viagens, personagens de séries de TV, amigos de infância, colegas de trabalho e algumas celebridades, todos misturados em minutos que pareceram horas de muita confusão. Despertou com o barulho do carro parando na garagem, e quando viu a hora no visor do celular, pulou assustado do sofá, apagando da memória todas as aventuras em seus sonhos, enquanto corria pra tomar uma ducha antes de sair. Iria ao cinema com os amigos. Trinta minutos depois, ele já estava caminhando para a parada de ônibus.
- Nota mental: me penitenciar por não dirigir - Disse suspirando e sentando no banco de concreto enquanto aguardava a condução.
Quando o ônibus despontou na ladeira, ele se levantou com a mochila nas costa e deu o sinal. Era o único passageiro naquela hora, mas sentou no fundo, encostado na janela com os pés sobre o banco, lendo as últimas páginas do livrinho adolescente. Quando terminou ainda não havia chegado ao shopping. O sol se fora e só havia mais uns três passageiros dentro da condução. Olhando a hora mais uma vez no visor do celular percebeu que estava atrasado.
- Putz - Para não dizer coisa pior - que merda - Acabou dizendo uma coisa um pouco pior. O bipe de mensagem piscou:

"JÁ ESTAMOS ENTRANDO NA SALA. QUANDO CHEGAR, AVISA QUE SAÍMOS COM SEU INGRESSO NA PORTARIA."

Sempre o último a chegar. 
- Maldito medo de dirigir!!
Já tinham passada mais uns 10 minutos quando finalmente desceu na parada do shopping.
- Perdi os trailers... Aff!
Correndo para a entrada lateral próxima da bilheteria do cinema, pensou: "Típico sábado de merda!" enquanto sentia o suor escorrendo pelas costas.
- Nada está tão mal que não possa sempre piorar! - Disse enquanto percebia a camiseta com duas rodas de suor debaixo dos braços.
Quando chegou a portaria das salas de cinema, tirou uma blusa de frio da mochila e a vestiu, tentando disfarçar o suor, sob os olhares reprovadores das pessoas ao redor. Ignorando todos, digitou a mensagem e esperou.
Quando viu seu amigo se aproximar com uma aparente irritação por ter sido arrancado da sala durante a sessão, pensou: "Espero que o filme valha todo esse sacrifício". Pegou o ingresso, entrou mostrando a carteirinha e foi seguindo seu amigo sem muito ânimo.

"Ainda bem que esse sábado está chegando ao fim."

Então finalmente entrou no "escurinho do cinema".

12 abril 2014

[ainda agora]

No meio das minhas caixas, encontrei minha redação no vestibular da UFG, em 2006, e resolvi transcrevê-la aqui...

 
Sobre a mesa de cabeceira, a manchete no jornal estampava a criação da "pílula do esquecimento". A caixa, semelhante a da notícia de jornal, estava no chão ao lado da cama, junto com o copo de água, agora só pela metade.
Ainda agora, sentado na beira da cama, podia ouvir as palavras do médico: "O senhor tem certeza de que é isso o que realmente quer?". Sentia-se triste e sozinho.

Lembrou-se do enterro da esposa, dos filhos reunidos em volta do caixão, cada rosto marcado pela dor da perda. Uma lágrima correu pelo seu rosto.
Lembrou-se então, sorrindo, do casamento do filho mais velho e também da primeira vez em que seu caçula trouxe a namorada para conhecer a família. Podia ver os filhos ainda pequenos aprendendo a andar de bicicleta, das quedas, do choro. As lágrimas agora corriam soltas pelo rosto enrugado.
Deitou-se e sonhou.

Sonhou com seu próprio casamento e a viagem de lua de mel. Podia ver com clareza a esposa grávida, a expectativa da chegada do primeiro menino.

Despertou do sonho sentindo-se estranho, cansado. Foi até o banheiro e viu-se no espelho: olhos vermelhos emoldurados por um rosto que não parecia o seu. As rugas e o cabelo, que estava branco e ralo em algumas partes, pareceram assustá-lo por alguns segundos, mas logo o sentimento o abandonou. Riu-se pensando em como o tempo passava depressa. Uma sensação de felicidade se apoderou dele.
Alguém bateu na porta do quarto: era o enfermeiro que trouxera os seus remédios e vinha levá-lo para caminhar. Ele pensou em como gostava de caminhar, e a medida em que se afastavam do prédio do asilo e adentravam no jardim, sua mente se dedicava a apreciar a beleza que os envolvia.

O enfermeiro lhe falava sobre a visita de seus filhos naquela tarde e tudo que ele pode fazer foi sorrir. "Coitado, deve estar me confundindo com outra pessoa, eu não tenho filhos", ele pensou, enquanto dirigia-se a um banco de concreto no jardim para se sentar. Não externou seu pensamento ao enfermeiro. Não queria constrangê-lo dizendo que ele o havia confundido com outra pessoa. O jovem parecia um bom profissional e estava tão contente. Ele apenas aquiesceu e o observou sentar-se ao seu lado no banco, ambos contemplando a beleza daquela manhã.

21 janeiro 2014

[sobre escrever, mais uma vez...]

Tem momentos na vida em que escrever é um prazer a que nos dedicamos com avidez, pelo simples fato de que muitas vezes as palavras escritas são a melhor válvula de escape para os sentimentos que nos atormentam de maneira desesperadora! Ao invés de gritos e lágrimas sentidas, era no teclado do computador que eu derramava toda a minha angústia.
Na contracapa de um livro do Rubem Alves, lemos as seguintes palavras:

"A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: 'Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas...' Pessoas felizes não fazem pérolas... Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída... Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de uma curiosidade. Este livro está cheio de areias pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi."

Sempre compartilhei desse pensamento, pois sei que de todas as coisas que já escrevi em minha vida, muitas delas compartilhadas neste blog, a grande maioria é fruto de uma insatisfação, de uma verdadeira dor que constantemente assola a minha alma.
Escrever era a forma que eu encontrei de expressar, de maneira direta ou velada, através dos meus contos, tudo que inquietava a minha mente.

Mas já faz um ano, mais ou menos, que as palavras simplesmente me escaparam. Escrever passou a ser uma tarefa árdua, cujos frutos muitas vezes eram para mim tão insatisfatórios, que poucas foram as coisas que realmente tornaram-se dignas de serem compartilhadas, ou mesmo, que tivessem um destino diferente da lata de lixo. A dor continua aqui, e na garganta eu tenho um constante grito engasgado, uma necessidade de me expressar que não encontra vazão em nenhum outro lugar. Tudo que posso fazer é simplesmente engolir seco e com um sorriso no rosto, continuar minha vida perdido em meio aos meus livros, vivendo num mundo de fantasia e aventuras que eu mesmo gostaria de ter vivido.

Trinta anos se passaram e sinto que simplesmente nada mudou. Olho ao redor e vejo tudo diferente, é claro. Não sou cego diante de tudo que aparentemente conquistei. Porém, por dentro, a imagem que construí de mim mesmo continua intacta, emoldurada pelas mesmas dúvidas e anseios, ainda esperando desesperadamente por uma resposta divina para as mesmas questões do adolescente de 15 anos atrás.

Um dia será diferente? Não sei dizer. Tudo que sei é que preciso dessas linhas para descansar, esvaziar a mente e tentar finalmente dormir, depois de tantos meses lutando com o travesseiro em busca de paz, na esperança de que de Deus ouça meu clamor e abrevie sua volta.

"tenho te pedido coisas, canais banais pro meu viver, mas este mundo é passageiro, quero viver para Ti... minha alma está pronta pra subir, oh vem, Senhor, vem me buscar... já estou cansado desse mundo aqui... volta!"

25 setembro 2013

[Eram três amigos]

Eram três amigos. Tinham pouco em comum, mas mesmo assim não se separavam, raras as vezes em que tinham compromissos que não envolviam os outros dois. Estudavam juntos na mesma sala desde de sempre. A tarde saiam juntos para fazer todo tipo de atividade que pudessem pensar. De noite, normalmente, arrumavam um programa barato e divertido... Independente de quando ou de onde, para eles a verdadeira alegria era a companhia uns dos outros.

Eram três nomes: Carlos, Samanta e Eli. Carlos era o típico atleta, amigável e sempre disponível. Curtia futebol, amava exercícios físicos e assistir filmes de terror. A paixão de Amanda pelos livros era o que a definia, e todos seus outros gostos ou qualquer atividade que se propunha a fazer, envolviam necessariamente seus preciosos amigos e constantes passeios pela biblioteca da escola. Já Eli era um cara difícil de se decifrar. Passava boa parte do tempo no celular, sempre conectado. Parecia sempre desligado do mundo, com a cabeça em seus jogos de computador e perfis que mantinha nas mais diversas redes sociais. Porém quem o conhecia mais de perto sabia que havia muito mais do que era possível perceber em uma primeira observação.

Eram três relações de troca. Carlos aprendeu a amar os livros por causa de Amanda. Eli começou a se ligar em esportes por causa de Carlos. Amanda começou a adentrar no mundo virtual dos blogs e e-books por causa de Eli. Nada era imposto. Estar perto dos amigos não era uma obrigação, mas simplesmente um prazer que eles compartilhavam. Falar de livros era uma atividade que Amanda cultivava em toda oportunidade, mas foi em Carlos que ela encontrou seu melhor ouvinte. Carlos era o desportista de vida saudável que encontrou em Eli o desafio de transformar uma vida sedentária em um praticante de esportes. Em Amanda, Eli viu a oportunidade de transformar uma completa "analfabeta digital" em uma blogueira de sucesso.

Eram três indivíduos. Tão diferentes e tão próximos. Ninguém compreendia essa amizade. Na verdade, nem eles mesmo a compreendiam, eles apenas a vivenciavam com intensa empolgação. Sabiam que os anos poderiam vir a os afastar, obrigando-os a seguir caminhos distintos, mas o que eles construíram juntos faria parte de cada um deles, de suas personalidades, para o resto de suas vidas!


Eram três amigos, e só os anos provariam se sempre o seriam. No decorrer do percurso talvez tenham que se separar, mas neste momento são simplesmente amigos, melhores amigos. Eles eram três, mas um apenas também: um grupo com uma linda história para contar.

21 dezembro 2012

[enquanto ela escreve o mundo continua a andar]

Ela escreve, distraída em seu caderno, trechos de livros que ama. Seus olhos estão semicerrados e sua testa vincada de concentração. Têm os cabelos, embaraçados e revoltos, emoldurando um rosto magro e encovado em alguns pontos. Está deitada em meio aos lençóis amarrotados, apoiando o caderno sobre o travesseiro, balançando os pés calçados com uma meia colorida.

O celular emite uma canção tranquila pelo auto-falante, e ela continua a escrever. Já é manhã alta e o sol derrama seu brilho ofuscante, pela janela do quarto, sobre a mobília simples, revelando leves defeitos e arranhões sobre a escrivaninha que fica ao lado da porta. Há diversos livros e CDs espalhados pelo chão, gavetas abertas e folhas de papel colorido cercadas de belos origamis de flores.

Ela fecha o caderno com um baque e colocando-o de lado, deita a cabeça e cobre o corpo mais uma vez, enquanto deixa as horas passarem. O sono começa a envolver mais uma vez e ela desliga sua consciência, evitando os problemas da vida real. Quando finalmente levantar, não vai mais poder evitar. Mas isso é para outra hora. A música ainda toca num volume baixo e o som da casa a despertar lhe lembra que agora não vai demorar muito para o inevitável encontro com o mundo lá fora. Enquanto isso, ela simplesmente cobre a cabeça com a colcha e finge poder ficar ali para sempre. Afinal, o dia 22 de dezembro sempre chega.

Infelizmente!

17 setembro 2012

[Bla bla bla] Rafael Rocha

foto - kleber bassa

Frequentemente sou convidado a participar de algum esquema ‘cristão’. Mas…
Já não aguento mais ouvir falar em congressos e conferências. Sistemas e esquemas. Cultos e missas.

Os discursos religiosos formatados me soam extremamente feios. Vazios de beleza, poesia e, o mais importante, conteúdo prático para a existência.
Sim, os conteúdos são vazios de sentido, de aplicabilidade… O que é muito triste.

Os evangélicos falam uma linguagem digna de seres extraterrestres. Às vezes, nem entre eles costumam se entender. Melhor quando é assim. Já a Igreja Católica insiste em fazer uso de uma comunicação que morreu na Idade Média.
Os que fogem à regra enfeitaram demais o formato. Esqueceram-se da simplicidade do conteúdo. Convictos e seguros em si mesmos, preferem continuar negando aquilo que Jesus ensinou.

Acho ridículo quando ouço falar de projetos, planejamentos e – o pior dos termos – visões! Sim, visões. As pessoas veem tanto e, ao mesmo tempo, não enxergam nada.
Se enxergassem, veriam o exemplo de Jesus, que abandonou qualquer padrão. Que fugiu às fórmulas e aos esquemas. As pessoas ignoram o conselho para que o seguíssemos… Preferem seguir os Seus supostos seguidores – surtados, em sua grande maioria.

Que outra visão é necessária para a decisão de ser Jesus na vida do outro (ao invés de falar abobrinhas na cabeça das pessoas!) além de um olhar que encare a realidade como ela é? Sem máscaras, sem religiosidade, sem pragmatismo, sem teologia, sem dogmas.

A religião se parece cada vez mais com a política. Nos dois sistemas, a lógica é a mesma. Os atores também… Pastores me envergonham tanto quanto os nossos vereadores, deputados, senadores etc. E o que dizer de padres e sacerdotes católicos?

Óbvio que não são todos. Mas aqueles que não pecam na prática do que é moralmente condenável erram na omissão. Pior para mim é tal pecado, a covardia.
Veem e fingem não ver…
Veem e permanecem onde estão…

Calados, covardes, com medo de romper com o ambiente seguro – ainda que sujo e profano – que lhes é oferecido pela religião.
Em grande parte das cidades brasileiras ainda é irrelevante o número de evangélicos. E eu, o que penso e faço diante disso?

Apenas oro para que tais cidades permaneçam assim. Onde há poucos evangélicos resta um pouco mais de espaço para o Evangelho.
Meu compromisso com o Evangelho me exige o rompimento com tudo aquilo que é “evangélico”.

Não posso, como fazem tais instituições cristãs, romper meu vínculo com a Vida! Não é preciso nenhum planejamento, método ou esquema para levar o Amor e a Graça ao coração do próximo.

Basta abrir a porta do quarto, sair de dentro dele, e mergulhar nos encontros com o ser-humano. Inevitáveis, quando se resolver sair do enclausuramento das quatro paredes, e abrir os braços para os abraços e para a Vida!

Não é preciso cadastro, inscrição ou roteiro. É só começar…
E, por mim, chega de bla bla bla.

(Texto escrito pelo meu irmão Hugo! Eu tive que compartilhar! Para ler mais, acesse contradiçãoTM).

14 setembro 2012

[o vazio dos dias]

Alguns dias são fáceis, outros não. Dias como hoje são dos difíceis. O vazio no estômago é muito mais do que o longo período sem comer. Ele é seguido daquele engasgo na garganta. É acompanhado pelas músicas que embalam meu sonho, aquele que vivencio acordado, no sofá da sala, com o notebook no colo, enquanto esvazio minha mente através das palavras digitadas.

É aquele vazio que sinto quando olho no espelho e contemplo a aparência que nunca desejei, longe do estereótipo que eu mesmo tracei como adequado. É o vazio que acompanha meu desânimo para estudar, para me empenhar em crescer, em mudar. É o vazio que me faz passar os dias estagnado, trancado em casa, sem vontade de sair.

Alguns dias são piores que os outros. Hoje é um dos dias em que deixo as horas passarem sem pensar no amanhã. É quando me abandono em autocomiseração e me permito desejar a morte ou o simples fim da convivência social em troca da solidão plena, sem as expectativas estampadas no rosto das pessoas que "amo". Às vezes gostaria de não amar, de não me importar. Tudo fica bem mais simples assim.

07 setembro 2012

[o clube do livro] - Final

[Jackson]

Enquanto caminhava de volta para casa, Jackson olhava as fotos na máquina digital sorrindo. As caretas e a grande algazarra que eles faziam quando estavam juntos já haviam virado marca registrada das fotos que registravam cada novo encontro. Passou por uma foto de um Fábio tímido e ainda bem sem graça, rindo das palhaçadas dos outros.
- Essa timidez não dura até o segundo encontro, tenho certeza - Disse para si mesmo, ao parar para olhar a pista antes de atravessar.
Nesse momento o celular vibrou com uma nova mensagem. Sacando o celular do bolso, não se sentiu surpreso ao encontrar uma nova mensagem da Marina:

"TODAS AS FOTOS NO MEU E-MAIL ATÉ AS 20H, OK? HAHAHAHAHA. BEIJO! MAH!"

Rindo, atravessou a rua e voltou a passar as fotos da máquina, observando cada uma das pessoas... Cada rosto e cada expressão. Não conseguia entender como pessoas tão diferentes podiam encontrar algo em comum e se tornarem amigos de verdade. Ele ainda lembrava a primeira vez em que havia conversado realmente com Jean.

Eles trabalhavam na mesma repartição, algumas mesas de distância, mas passaram meses trocando apenas cumprimentos educados como "bom dia", "bom final de semana", e nada além disso. Estavam lotados em setores diferentes e tinham horários também diferenciados. Até que numa tarde, Jackson teve que trabalhar até mais tarde, e quando saiu, se deparou com um Jean sentado no banco da parada de ônibus com um livro na mão, perdido numa história que parecia bem empolgante, o que não permitiu que ele sequer percebesse a aproximação de Jackson. Ele sempre olhou para aquele jovem tatuado e forte como alguém que vivia em shows de rock e bêbado nos finais de semana com os amigos, e nunca como um ávido leitor. Sentou-se ao seu lado e disse:
- Deve ser realmente um livro incrível para te tirar da realidade desse jeito, einh?
Jean levantou os olhos assustado, e logo sorriu quando reconheceu Jackson, o rapaz com cara de nerd que trabalhava na área de informática.
- É sim um excelente livro. Tenho que terminar até amanhã cedo - Disse fechando o livro, enquanto marcava a página com um canhoto de pagamento de uma conta de água.
- Por que até amanhã? Tem que devolver o livro para o dono? - Perguntou Jackson curioso.
- Não! - Riu Jean olhando para o rapaz que sentara-se ao seu lado. - Estou participando de uma espécie de clube do livro com alguns amigos da minha namorada. Nunca fui muito de ler, mas depois que conheci Andrea, acho que a paixão dela me contaminou - E, lembrando que não se conheciam, acrescentou - Andrea é minha namorada. Aliás, meu nome é Jean, e infelizmente não lembro o seu - Disse estendendo a mão.
Jackson também estendeu a mão para apertar a dele e acrescentou:
- Jackson, meu nome é Jackson. É engraçado que trabalhamos juntos a tanto tempo e nunca trocamos mais do que duas ou três palavras, não é?
- Sua cara de nerd não é muito convidativa para tecer novas amizades. - Disse Jean rindo - Sério, os rapazes do almoxarifado costumam dizer que você só deve ter amigos virtuais. - Ao olhar a cara desconfiada de Jackson, acrescentou - Mas é tudo brincadeira, afinal, mal te conhecemos. É que você costuma andar sempre de cabeça baixa, e quase nunca conversa com ninguém lá dentro.
- É, sou meio tímido, eu acho. - Disse rindo.
- Na verdade, as pessoas te acham metido.
Jackson começou a rir, e Jean o acompanhou.
- Tenho mesmo que mudar meu jeito - Disse enquanto olhava o livro nas mãos de Jean - Mas mudando de assunto, como é essa história de clube do livro?
- Ah, isso é uma invenção da Marina, uma antiga colega de faculdade da Andrea. Ela e um amigo dela, o Alex, começaram com essa história, e convidaram minha namorada, que me arrastou para isso. E no final das contas, não é que eu gostei. Esse já é o terceiro livro que leio com eles. E acabei me tornando amigo daqueles estranhos loucos. - Disse Jean sorrindo. E perguntou: - Você gosta de ler livros literários?
- E macaco gosta de banana? - Disse Jackson virando os olhos.
- Bem, com essa cara de nerd da informática, achei que tudo que você lê-se fossem blogs de manuais de instruções.
- Eu quando te vi com o livro eu também me surpreendi, com essa cara de roqueiro, só conseguia te imaginar batendo cabeça por aí - Disse Jackson rindo.
Dando um soco de leve no ombro dele, Jean sorriu.
- Roqueiros também pensam, senhor preconceito.
- Olha só quem fala de preconceito. Nerds também se divertem.
Nesse momento um ônibus se aproximava. Jean se levantou e disse:
- 340! É meu ônibus.
- É o meu também. - Disse Jackson se levantando.
- Pô, você mora onde?
- Perto do cemitério.
- Putz, meu apartamento com a Andrea é logo depois do cemitério. Como a gente nunca se esbarrou por lá?
Dando sinal para o ônibus, eles embarcaram e sentaram juntos no fundo do ônibus.

Daquele dia em diante, eles se tornaram amigos. Jackson conheceu Andrea e depois disso, o clube, Marina e Alex e os livros foram uma consequência.
Hoje, já faziam quase seis meses que liam juntos e saiam juntos. Não acreditava em como sua vida mudou radicalmente, e tudo por causa de uma conversa numa parada de ônibus.

Quando chegou em casa, sentou na mesa, abriu o notebook e pegou a câmera para descarregar as fotos. Sorrindo, voltou a observar cada um dos amigos com carinho. Todos tão diferentes e tão parecidos. Olhou a estante de livros perto do sofá e viu cada um dos livros que já tinham lido juntos e sentiu-se muito grato. Nunca na vida tivera amigos como aqueles, e os livros foram o pontapé inicial para aquele relacionamento.


Pegou o celular e mandou uma mensagem coletiva, adicionando um novo contato, aos já habituais destinatários:

"FOTOS ENVIADAS! VAMOS MESMO AO PARQUE AMANHÃ CEDO? NÃO ESQUEÇAM DE PENSAR NO PRÓXIMO TÍTULO QUE VAMOS LER. AMANHÃ A GENTE FAZ A VOTAÇÃO OU SORTEIO PARA A ESCOLHA. ABRAÇÃO! JACK"

Mudou o fundo de tela do notebook para uma foto onde todos estavam jogados no sofá, cobertos de pipoca e jujubas, com Fábio apoiado no braço do sofá, rindo descontrolado da bagunça.
Sorriu e fechou o notebook com um estalo e se dirigiu ao banheiro para tomar um banho.


[FIM]